dicas - O Porosímetro

Autor: Paulo Pinto

 

No início da década de 90, à medida que o parapente ganhava o mundo, surgiram no mercado alguns modelos que tiveram uma vida muito curta face ao envelhecimento prematuro do tecido utilizado.
Embora esse problema já fosse de conhecimento bastante difundido na Europa desde 1989, somente em 1991 nós, no Rio, fomos ter uma perfeita noção da sua magnitude.
Isso aconteceu, quando o Bruno Menescal voltou do Campeonato Mundial, com a informação de que os problemas que o seu Saphir vinha apresentando tinham como causa a porosidade precoce do tecido.
Foi então que se deu conta de que existiam no Rio outros parapentes com problemas semelhantes e cujo tecido era o mesmo. Somente nesse momento, é que nós "caímos na real", pois ainda não se tinha idéia que a impermeabilização era uma condição essencial para um velame continuar com bom desempenho e sem dificuldades de inflado na decolagem e sem entradas inadvertidas em parachutagem.
Essa necessidade, hoje, parece bastante lógica e evidente, mas a verdade é que ninguém havia ainda se apercebido dela naqueles tempos.
O velame de um parapente, uma vez inflado, deve conformar perfeitamente o perfil e o formato de seu aerofólio de projeto. O ar admitido nas células, em teoria, deve ficar retido no seu interior, mantendo uma pressão adequada, de modo a preservar a rigidez necessária que permita que o escoamento sobre o extra-dorso se processe do modo mais uniforme possível(seria preciosismo falar em escoamento laminar, uma vez que a camada limite de um parapente, em teoria, é turbulenta e não laminar - o que traz como benefício natural uma re-adesão do escoamento retardando o descolamento).
Mas é claro que, na prática, isso não ocorre, porquanto sempre haverá ar escapando pelas costuras, sendo necessária uma alimentação permanente para manter essa pressão interna. Até mesmo pelas próprias bocas o ar também escapa em razão das articulações e movimentos do velame. E também pelo excesso de pressão externa - como ocorre quando queremos completar o nível de água de uma garrafa com muita pressão no gargalo e há um retorno(sempre haverá uma pressão externa maior com mais ar do que é necessário para recompletar as perdas por vazamento).
Quando o velame apresenta impermeabilização deficiente(porosidade) o ar, ademais, escapará pelo próprio tecido do extra-dorso, onde, por conseqüência da existência de sustentação, a pressão é menor. Dependendo do quanto seja essa perda de ar e de onde ela ocorra, a espessura da camada-limite poderá sofrer alterações que perturbem substancialmente o escoamento e provoquem um descolamento prematuro dos filetes de ar.
Na prática, o resultado é que o parapente poroso fica difícil de inflar e à baixa velocidade tende a entrar em parachutagem com muita facilidade(a situação será tanto mais grave quanto maior seja a área de tecido afetada).

Foi também por volta do início da década que começaram a surgir no mercado os porosímetros especificamente fabricados para avaliar o estado de impermeabilização dos tecidos de parapente.
Esses aparelhos, no caso específico do modelo fabricado pela JDC Electronics, medem o tempo que ¼ de litro de ar leva para atravessar uma seção de 25 cm2 de tecido, sendo essa medição feita, de dentro para fora, no extra-dorso, e, em uma primeira abordagem, o mais próximo possível da entrada de ar da célula central(esse é o local mais sacrificado do velame e o primeiro a apresentar degeneração). Havendo dúvidas quanto ao resultado obtido, deve-se então estender essa avaliação para diversos pontos do velame de modo a se ter uma perfeita noção do seu estado geral.
A JDC, no manual de utilização do aparelho, estabelece que um tecido que apresente resultado superior a 5 minutos seja considerado novo e que com menos de 6 segundos, deva ser considerado impróprio para vôo.
Os diversos fabricantes, no entanto, estabelecem seus próprios valores para que seus parapentes sejam considerados perfeitos para continuar voando. Por isso, julgamos importante que se tenha uma perfeita noção do significado desses valores que, via de regra, se situam na faixa de 15 a 30 segundos.

Para se melhor compreender o porquê desses critérios, é preciso que saibamos, de início, que tudo vai depender da pressão interna do velame.
Um parapente que tenha as bocas mais voltadas para a direção do fluxo de ar de deslocamento(mais próximas do bordo de ataque) trabalha com mais pressão interna, podendo, portanto, tolerar melhor a perda de ar, pois a alimentação é mais eficiente.
Um exemplo são aqueles parapentes antigos, quase iguais aos pára-quedas retangulares, que tinham uma tolerância maior à porosidade porque tinham bocas enormes e uma grande pressão interna.
A maioria dos pára-quedas retangulares, é bom que se saiba, inclusive, utiliza, até hoje, tecido poroso, embora os modelos mais performantes já façam uso de tecido impermeável(o que traz um grande problema de ordem estrutural, a absorção do choque de abertura, tanto na sua fabricação, quanto na sua utilização operacional).
Um parapente moderno, por sua vez, que tenha pequenas entradas de ar situadas mais além do bordo-de-ataque no intra-dorso (mais embaixo), tem pressão interna menor e é menos tolerante às perdas de ar por vazamento
Certamente muito parapente-escola moderno de hoje tem condições de continuar voando, mesmo muito poroso. O mesmo já poderá não ser verdadeiro para um parapente de alta performance que poderá começar a ter problemas de inflado já na decolagem.
Mas é claro que um parapente excessivamente poroso, mesmo que em condições de continuar voando, perderá eficiência por anomalia no escoamento de ar no extra-dorso.

Ninguém melhor, portanto, que o próprio fabricante para dizer até quando o parapente deva continuar voando(o ideal talvez fosse a própria homologação estabelecer esses valores, mas é de se reconhecer que isso seria muito difícil de operacionalizar).
Entretanto, o fato de que um parapente que apresente 30 segundos no teste continuar sendo perfeito para vôo e, portanto, sem qualquer degradação de desempenho(ou seja, voando como novo), não significa que ele deva ser considerado novo.
Nos parece óbvio que para se ter uma perfeita noção do desgaste e do estado de um parapente usado, mister se faz necessário saber, pelo menos, além do tempo atual de porosímetro, qual o tempo que o tecido tinha quando novo e qual o tempo de utilização que ele já tem.
E o ideal, é claro, seria conhecer a curva de degeneração do tecido, mas isso é divagar sobre quimeras e não leva a lugar nenhum.

Resumindo, um tecido só deve ser considerado novo se ele ainda apresenta o mesmo tempo que tinha quando sem uso. E assim mesmo, se ele já tiver uso, o máximo que se pode garantir é que ele tem o mesmo tempo e que ainda não começou a se degradar.
Uma coisa, no entanto, parece lógica de concluir. Um tecido, que novo, tenha mais tempo de teste que outro, deve, em princípio, ter vida mais longa.
Isso não chega a ser uma verdade absoluta, nem uma certeza matemática, mas é algo bastante razoável de se deduzir. No entento só o tempo poderá, realmente, comprovar.
Uma sugestão que fazemos é cada um controlar seu parapente, fazendo o teste de porosímetro a períodos regulares de vôo (tempo de vôo seria um bom critério) de modo a ter um perfeito acompanhamento do seu desgaste.

Àqueles pilotos habituados a deixarem seus parapentes tomando banho de ultra violeta por horas a fio depois do pouso, um aviso. Não se surpreendam depois com o resultado do porosímetro.

Parapente é um bem de consumo. Apenas, deve ser consumido lentamente...

Voando !!

 

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